Incêndio invisível
- É impressão minha ou você está me evitando?
Ele perguntou enquanto ela lavava as mãos no cantinho do banheiro do bar. Ela parou um pouco para ouvir as palavras e continuou a lavar as mãos sem responder. Ela tinha dado o simples oi e um abraço quando ele chegou no bar. Sentou longe dele e conversou com as pessoas novas do grupo que via raramente quando o destino dela se cruzava ao dele. Ela secou as mãos, virou-se e o viu esperando uma resposta, curioso. Não sabia se ele estava chateado ou apenas curioso por ela não ter dado nenhuma atenção nem dirigido a palavra a ele naquela noite.
- Não, não é impressão.
- Mas por que você está me evitando então?
Ela realmente não sabia o intuito daquela pergunta ou o que ele realmente queria saber, mas ela sabia que ele tinha consciência do motivo.
- É sério?
- O que?
- Que você não sabe o motivo?
Ele hesitou.
- Bem... não.
Mas ele não tinha confiança nesse não. Ou não queria admitir, talvez.
- Você quer realmente que eu fale? Assim. Fale. Simplesmente? Jogue a verdade nua e crua? Sem arrudeios ou floreios? Você realmente não sabe?
- Não. E eu queria saber.
Ela riu, incrédula. Ela não acreditava que ele fosse fazer essa pergunta. Tanto que ela evitou um cruzar de conversa com ele naquele dia e ele simplesmente vem. Simplesmente existe. E a irrita com esse mero fato.
- Você quer que eu fale então?
- Sim.
- Ok - ela parou por um instante e olhou séria para ele - Porque eu quero você, ok? Você sabe disso. Dá para sentir que você também quer e isso é ridículo porque você tem namorada, mas ainda assim não dá nem pra cortar com uma serra a tensão que existe quando você está perto de mim. E sabemos que a gente não pode fazer mais nada além do que já aconteceu.
Em dois episódios anteriores, eles cruzaram destinos. Não, não se apaixonaram. O destino fez com que os dois compartilhassem do mesmo tempo e espaço.
- Hm... - ele hesitou pesaroso.
- Você acha que é fácil para mim te ver a poucos metros e simplesmente não poder te tocar da forma como eu quero? De só querer que o mundo exploda e fique só eu e você e mais ninguém para nos ver ou impedir ou atrapalhar... - e ela gesticulou como se tentando tocar em algo invisível entre ela e ele - isso. Essa coisa que aparece quando você surge e eu sei que você sente o mesmo.
Ela olhou para longe e viu que ainda podia vomitar tudo que estava entalado sem que ninguém pudesse ouvir e ver as palavras e desejos no chão do recinto.
- Toda vez que eu te vejo, eu sinto esse fogo imediato me queimar por dentro e só te querer e... e transar com você ali mesmo. Sentir tua pele na minha, tua mão me apertando e teus braços me carregando como se só aquilo bastasse. - ela parecia agoniada ao dizer tudo aquilo. Fez uma cara incrédula quando voltou a falar - E eu nem falo de amor. Eu não sou apaixonada por você. Deus, não, eu não amo você. Mas você tem esse... poder; você me amaldiçoou desde o momento que você me olhou com desejo. Eu consigo lembrar desse olhar e te odeio por ele.
- Você me odeia?
- SIM! Eu te odeio. Porque eu nem gosto de você. Você é como qualquer outra pessoa. Tem pessoas melhores do que você! Eu sei que eu sou muito mais do que você. Mas você TEM essa... coisa... Essa maldição que me faz querer esquecer o mundo e ter só você por horas. Ter o seu corpo, a tua mente e esse teu olhar por horas. Passar um dia no chão do quarto. Transando e fazendo o que surgisse. Sentir teu beijo molhado no meu e teu corpo tocar meu peito freneticamente devagar. Passar o tempo deitados a base de vinho e pão. Passar horas conversando sobre... sei lá. Nossa insignificância. Sentir essa energia pulsante ao estar perto de você se esvaziar entre tuas pernas. Mas eu só queria sentir raiva de você.
- Raiva de mim?
- Sim! De você mesmo! Porque EU SEI que você sente o mesmo. E eu sei que é... é como um rádio sintonizado. É essa vibração que simplesmente se alinha. Mas que não tem nada material para externá-la. Somos ondas dispersas no espaço sem corpo para propagar. Uma explosão que nunca será ouvida na escuridão.
Ele não parecia respirar. Abriu a boca, mas desistiu de falar antes de emitir qualquer som. Parecia querer chegar próximo dela, mas não conseguia se mover. Ela sorriu desistindo.
- Estamos em combustão constante, mas sem condições de nos deixarmos queimar por completo. E é por isso que estou te evitando.
Ela deu um sorriso singelo, um agradecimento pela tortura. Ele a viu voltar para a mesa, rir como se não estivesse mais em chamas, tentando apagá-las com a dose de cachaça à sua frente. Ele olhou para o chão e viu as brasas que ela tinha jogado. Ele viu a própria carne cicatrizada voltar a ficar em carne viva quando ele se deu conta do incêndio que ocorria quando o olhar de brasas dela cruzava com o dele.
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